Iatismo: Circuito Conesul de Vela de Oceano


Data: 5/3/2012

Para a cultura gaúcha o dia 20 de setembro é uma data muito especial, quando é comemorada a Revolução Farroupilha.

Nesse mesmo mês se realiza um dos circuitos mais importantes, senão o mais importante e mais aguardado da vela gaúcha, o circuito conesul de vela de oceano.

O rio grande do sul é um centro de excelência da vela de alta performance, grandes velejadores de classe velejam nas águas do guaíba com os olhos numa vaga olímpica, mas nessa data em especial é possível tripular com, ou contra eles.

Além de competir com vários campeões mundiais de diversas classes do iatismo brasileiro, a maior parte dos barcos é de cruzeiro, sem preparativos especiais como os monotipos, mas as tripulações são afiadíssimas, velejadores experientes de todas as idades e todos com muita sede de vitória.

Tive a oportunidade de correr o circuito duas vezes, 2010 e 2011, cada edição num barco diferente.

Em 2010 fui convidado para compor a tripulação do veleiro mandinga comandado por Gustavo Lis, que no ano anterior com a cheia do Guaíba acertou uma pedra que assustou a tripulação, mas que por sorte não causou grandes avarias à embarcação. Apenas tirou deles a chance de vitória, mas que em 2010 estava disposto a levar o caneco custasse o esforço que fosse necessário.

Tripulo em vários barcos diferentes, às vezes conheço a tripulação no trapiche do iate clube e confesso que a determinação e organização do comandante me surpreendeu. Velejamos diversas vezes antes para nos familiarizarmos com o barco, treinar as manobras, alinhar as posições de cada tripulante, trabalho de equipe, sempre orquestrado pelo comandante Lis.

O circuito foi dividido em 2 etapas, o 1º final de semana com uma regata de percurso curto e regatas barla-sota e no 2º final de semana 2 regatas de percurso longo, a regata farroupilha e a regata seival, conforme a data sugere, a regata farroupilha em homenagem à revolução que marcou a história do povo gaúcho e a regata seival em homenagem ao nome dado à embarcação utilizada na batalha, tendo a regata farroupilha um percurso menor que a regata seival.

No final de semana tivemos boas médias segundo nossos cálculos, mas como cada barco tem uma medição, dependíamos de outras informações para ter certeza da nossa posição frente os outros barcos. Estávamos correndo dentro de uma classe com sub-divisões de acordo com a medição de cada barco.

Largamos bem, mas a flotilha era grande e todo cuidado era importante e influenciaria mais tarde nas montagens de boia, decisão de velas e a navegação propriamente dita. Navega-se aproximadamente 6 horas até alcançarmos as proximidades do farol de itapuã, região que já começa a ficar desprotegida e por consequência com ventos mais fortes.

Após cruzarmos a região da ponta grossa, navegamos na esteira de um veleiro maior e assim seguimos até as proximidades de Itapuã. Em questão de minutos fizemos 2 trocas de vela, grande risado e genoa 3, quase decidindo subir a storm. Toda a tripulação estava na escora, inclusive o comandante e mesmo assim quase ficamos sem leme várias vezes. O vento havia dobrado sua intensidade, mas nós mantínhamos o mesmo peso de tripulação, então toda a técnica era empregada à navegada.

Quando deixamos pelo través de bombordo, o farol de Itapuã, o vento ficou ainda mais forte e graças ao trabalho da tripulação estávamos com as velas corretas para aquele intenso trecho de navegação.

Voltamos uma boa parte do trecho navegando de través e já próximo à ponta grossa o vento rondou e tivemos a oportunidade de colocar o balão, agora com um vento que variava entre 15 e 20 knots. A essa altura da regata tudo era um breu, mas tínhamos visual das luzes de navegação das outras embarcações, quando víamos algo.

A chegada seria na ilha do presídio, mas quando estávamos a menos de uma milha o vento parou completamente, imagine a nossa frustração. Mais de 12 horas navegando debaixo de ventos fortes e constantes para praticamente morrer na praia! Ficamos mais de 1 hora parados tentando de tudo com a comissão de regata no visual, mas sem poder fazer absolutamente nada.

Enquanto isso observava os barcos se aproximarem, pois o vento só havia parado onde estávamos e isso poderia afetar todo o resultado da regata, mas por muita sorte uma forte rajada entrou e nos empurrou até a linha de chegada nos presenteando mais tarde com dois troféus, campeão na classe e campeão na geral.

O mesmo aconteceu na edição de 2011, mas dessa vez a bordo do veleiro Boa Vida IV do comandante Marcelo Bernd, um lindo Wind 43. Estávamos disputando a regata seival, a maior regata do circuito, navegando há mais de 13 horas até atingirmos exatamente o mesmo lugar da edição 2010.

Ficamos parados aguardando aquela última brisa que nos levaria à linha de chegada, mas dessa vez com um barco duas vezes mais pesado. Mesmo assim conseguimos cruzar a linha de chegada após 15 horas de regata para levar para casa o cobiçado troféu xodó destinado ao fita azul, o barco mais rápido da regata.

Mais histórias de Ricardo Machion em:

www.umhomemdomar.blogspot.com


Todas as colunas

 

Nota do editor: o texto desta coluna não reflete necessariamente a opinião do site 360 Graus, sendo de única e exclusiva responsabilidade de seu autor.





© Copyright 1998 - 2012 - 360 GRAUS MULTIMÍDIA
Proibida a reprodução integral ou parcial, para uso comercial, editorial ou republicação na Internet, sem autorização mesmo que citada a fonte.

Compartilhe:


Livros:

Equipamentos: