Dupla de velejadores conta como foi a travessia do Drake

Tema:Expedições
Autor: Chris Bueno
Data: 14/4/2003

Atravessar a perigosa faixa de oceano que liga o Extremo sul do continente americano à Península Antártica a bordo de um veleiro sem cabine. Parece impossível, mas eles conseguiram. O brasileiro Betão Pandiani (45) e o sul-africano Duncan Ross (39) conquistaram a marca inédita de serem os únicos velejadores do mundo a completar a travessia do Estreito de Drake em um catamaran.

Em 45 dias de viagem eles enfrentaram ondas enormes e blocos de gelo, cruzaram com baleias e velejaram entre icebergs. A viagem foi um teste radical dos limites físicos, da capacidade organizacional da equipe, das novas tecnologias de transmissão de imagens via satélite, da logística para manutenção da energia dos equipamentos eletrônicos e, principalmente, de como manter o equilíbrio emocional e mental em uma situação tão adversa.

Segundo eles, uma das experiências mais surpreendentes durante a travessia é a condição emocional que se projeta. “Você está acordado e dormindo ao mesmo tempo. O cansaço é enorme e você não se dá conta e chega ao limite”, comenta Duncan. “Talvez esse cansaço, não sei, acaba gerando uma situação meio mística. Algumas vezes nós tínhamos a sensação de que havia uma outra pessoa a bordo”, completa Betão. Essas experiências só foram relatadas quando a travessia foi concluída. “O mais estranho é que as alucinações, se é que podemos chamar assim, foram as mesmas para nós dois. Vimos as mesmas coisas e no mesmo instante”, completa.

De volta ao Brasil, eles realizaram uma coletiva em São Paulo no dia 24 de março e contaram os detalhes da travessia. Saiba como foi a aventura:


O barco

Betão Pandiani – Precisávamos de um barco forte, leve e rápido. Por isso escolhemos o catamaran sem cabine. A travessia era estratégica: quanto menos tempo gastássemos atravessando o Drake, melhor. Na primeira velejada que demos, percebemos que o barco respondia rápido, que era o que esperávamos. O barco andou muito bem em uma situação muito adversa. Prova de que o barco é um sucesso é o fato de estarmos aqui!

A equipe

Betão – A equipe foi a parte mais importante de todo o projeto. Eu e o Duncan nos conhecíamos bastante. Passamos sete meses velejando num catamaran sem cabine, portanto fizemos esse projeto juntos. Convidamos o Júlio Fiadi porque ele já tinha ido seis vezes para a Antártica, e ele funcionou o tempo todo como um consultor. O Oleg é um homem de caráter muito forte, que tinha estado na Antártica quinze vezes e conhecia muito bem a região. Tínhamos como prioridade encontrar alguém como Oleg para nos guiar e orientar. A voz que dizia se devíamos avançar ou não era dele. O Makoto (Ishibe) me ligou um dia e perguntou o que eu estava fazendo. Eu contei da expedição e ele se ofereceu (ele é muito oferecido). Ele disse “quero fazer esse projeto também, quero voltar às expedições”. Então ele entrou no projeto como cinegrafista. O Fábio Tozzi foi o médico da viagem “Entre Trópicos”, e na ”Rota Austral” ele também foi responsável pela preparação médica. Ele já foi quatro vezes para a Antártica. É uma pessoa muito estável, dócil e conciliadora, e isso era muito importante para a equipe. O Moysés (Pluciennik) e o Betão entraram depois, como convidados de luxo, ficaram assistindo toda a expedição de camarote e alegram a viagem.

Segurança

Betão - Não é de nossa natureza arriscar. Parece contra-senso dizer isso, mas não gostamos de correr riscos. Nos preocupamos muito com toda a preparação médica e segurança. Oleg achava que nossa chance de atravessar o Estreito de Drake era de 30%. Eu não compartilhava dessa opinião, porque sou muito otimista. Respeitamos essa opinião, mas nos preparamos para aproveitar esses 30%. Além do Oleg, nós consultamos duas empresas de meteorologia para saber se haveria a possibilidade de realizar a travessia.

Duncan – Meteorologia não é uma coisa precisa, mas dá mais segurança. Quando estamos em casa, saber se vai chover não faz tanta diferença. Mas para nós, que estávamos lá, essa era uma questão de vida ou morte. Se o tempo fosse ruim, havia uma grande possibilidade de não dar certo.

Betão – Aprendemos muito com essa expedição. Em nenhum momento, durante a viagem, eu me senti temeroso em relação à minha vida ou às vidas das pessoas do projeto. Passei um ano tentando baixar os riscos a nível zero. Eu estava tranqüilo. Me disseram que parecia que eu ia passear de hobie cat numa represa. Obviamente eu tinha certa preocupação, mas estava me sentindo muito seguro, porque tinha feito minha lição de casa. Fizemos o possível e o impossível para realizar o projeto em segurança.

Partida

Betão - A decisão da hora de partir era a mais importante. Nossa espera podia ser de um dia ou de um mês. Se isso acontecesse, o ambiente no Kotic poderia se deteriorar. Eu tinha medo que o ambiente se desgastasse, que as pessoas desanimassem. E também tinha medo de eu mesmo ultrapassar o sinal vermelho, de não ter a paciência de esperar, ou a ousadia de partir. Ficamos ouvindo um monte de palpites, recebendo um monte de informações. Mas precisávamos tomar uma decisão. E só partimos quando ouvimos três “sins” (do Oleg e das duas agências de meteorologia). Na segunda recebemos a informação de que era quase certeza que a terça seria o dia da partida. E na terça veio a confirmação. Eram 14h quando colocamos o barco na água. Melhor do que estava era impossível. Oleg disse “vai pro barco que é agora”.

O Drake

Betão – O Drake é muito traiçoeiro. Ele fica entra a América do Sul e a Antártica. E na Antártica é onde nascem todas as frentes frias. E elas nascem ali, fresquinhas. Elas tem uma movimentação imprevisível. E o mar é muito tumultuado porque o solo é muito irregular, causando ondulações muito grandes. Sem contar que tem um vento oeste muito forte, que se encontrar com alguma frente fria, dificulta bastante. Na metade do caminho entra na convergência Antártica, com água a 1 grau e ventos a 50 nós.

Dificuldades

Duncan –Gastamos muita energia, passamos a noite despertos, com pouca possibilidade de descansar. Não dá para os dois dormirem. Tem que velejar. Na madrugada, muito escuro, fica difícil velejar. Não pode velejar com a lanterna acesa o tempo todo. Com muito sono, fica muito fácil perder o caminho. Tem que ficar muito concentrado. Para mim isso foi o mais difícil da viagem.

Melhor parte

Betão - Quanto mais ao sul, mais curtas ficavam as noites. Meu corpo começou a se habituar, e eu estava me sentindo muito bem. O Duncan estava dormindo, e eu estava no meu turno. Estávamos fazendo uma boa média em direção ao nosso destino. Eu estava completamente tranqüilo. Foi o melhor momento pra mim.

Encontros e desencontros

Betão –Teve uma hora que a gente não viu mais o barco de apoio. A gente falava a cada quatro horas, mas não sabia onde eles estavam – embora eles soubessem onde a gente estava. Numa noite sem vento, ficamos parados um tempão. O Kotic não estava muito longe. Como as três últimas posições indicavam que estávamos no mesmo lugar, por causa da parada, o Kotic ficou preocupado e veio atrás da gente. Eles se aproximaram e nós os avistamos. Eles perguntaram pra gente se precisávamos de algo, mas era uma viagem sem suporte, então eu recusei. E retruquei: “a gente não. E vocês, precisam de alguma coisa?”.

Perto do final

Betão – A névoa estava muito densa, não enxergávamos nada. Parecia que estávamos velejando no céu. Estávamos perto de Deception, fazendo as contas da hora de chegada. Mas o tempo mudou, o vento ficou de cara, e o que era sete horas velejando de repente virou 30 horas.

Duncan – Era muito perigoso. Vento de oeste, ondas de leste. O vento contra as ondas foi uma situação muito ruim.

Betão – Pra ajudar, a gente estava andando com uma bússola que estava marcando o local errado.

Duncan – Quando percebemos, liguei o GPS e nos localizamos. Por um momento, não sabíamos onde estávamos ou para onde íamos. Ficamos perdidos. Entramos em contato com o Kotic, e ele veio atrás da gente. Foi um momento tenso. Resolvermos para o barco. Não íamos velejar sem saber onde estávamos.

Betão – Decidimos parar o barco para saber onde estávamos. O Kotic entrou em contato com a gente e disse “vocês já atravessaram o Drake”. Nós já tínhamos cumprido nosso objetivo, mesmo sem saber. Quando o Kotic chegou, já havia um clima de festa no barco. E nós estávamos esgotados. Decidimos parar os dois barcos para passar a noite. Era imprudente prosseguir com o vento e o gelo. Eu subi no Kotic e amarramos o Satellite. Quando entrei no Kotic, foi uma comemoração só. O Oleg deu uma ordem “vocês já atravessaram o Drake. Agora, vão pra casa!”.

A velejada de uma vida

Betão – De Deception para Melchior, fizemos uma previsão para sairmos para uma velejada. Mas dentro da península é muito mais difícil fazer uma previsão. Deception é toda vulcânica, coberta com uma névoa espessa. Passamos por geleiras cheias de pingüins e muitos icebergs. Tinha até um clima místico. Muito lindo e muito frio. Nessa velejada, o vento aumentou, o mar cresceu muito. Mas as condições para navegar ainda estavam boas. Só que começou a piorar, a aparecer pedras de gelo no mar e a nevar. Fomos abaixando as velas – nunca naveguei com tão pouca vela. E ainda tinha que desviar das pedras de gelo, que eram transparentes e se confundiam com o mar. Parecia um videogame. Aí vimos uma baleia. Ela levantou bem na frente do barco, e entrou de novo na água. Passamos por cima dela dois segundos depois. Olhamos para trás e vimos ela se afastar. Essa foi a cena mais linda que eu já vi. Foi a velejada da minha vida!

A conquista

Betão – Nós tínhamos plena consciência de que éramos os primeiros velejadores a chegar de catamaran sem cabine na Antártica. Nossa jangada hi-tech nos levou até ali. Deu orgulho daquele barquinho. Foi a melhor noite da minha vida. Perguntaram para Oleg o grau de dificuldade da travessia, e ele respondeu “o que eles fizeram eu, mesmo estando lá, não achava que fosse feito. E não acredito que alguém faça de novo”. Na hora eu não realizei o que eu tinha feito. Até agora não realizei, ainda não caiu a ficha.

O que ficou

Betão - O que ficou de mais importante de tudo isso foi o espírito de equipe. Doze pessoas juntas por 45 dias, e nenhuma discussão. Voltamos mais amigos, ainda mais próximos. Nunca tive uma expedição com tanta gente.

Nesta reportagem:

» Dupla de velejadores inicia a Expedição Travessia do Drake
» Travessia do Drake: velejadores se aproximam da Península Antártica
» Velejadores concluem com sucesso a travessia do Drake em um catamaran
» O projeto Drake





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