A neve do Kilimanjaro

Autora: Margi Moss
Data: 12/2/2007

(coluna publicada originalmente em 23/02/2001) - A teoria do aquecimento global, considerada alarmista pelos poderosos que teriam de apertar o cinto, ficou meio esquecida durante alguns anos. Agora cientistas, meteorologistas e ecologistas do mundo inteiro voltaram com tudo. Mesmo os mais ardentes antiecologistas, exceto talvez os industrialistas mais poluidores dos Estados Unidos e o governo daquele país, têm de reconhecer o que todos os fatos apontam e o que a gente sente na pele.

Ao ler nos jornais que as geleiras dos Andes e do Himalaia estão se derretendo, uma pessoa leiga dificilmente se preocupa. Afinal, a grande maioria não escala montanhas nem vê picos nevados no horizonte. Portanto, a notícia não figura entre as grandes inquietações do seu dia-a-dia.

Há tempos que acompanho os prognósticos sobre a saúde da Terra moribunda. Mas esta semana levei um susto ao ver no jornal O Globo, uma foto de uma girafa, com meu querido Kilimanjaro ao fundo, e o aviso "Kilimanjaro sob ameaça de perder pico nevado".

O "Kili", como o chamávamos, era um amigo de infância, uma presença constante nos meus anos ternos. Até servia de brinquedo. Cada vez que íamos no carro da família para o centro de Nairóbi (capital do Quênia, para quem perdeu a aula), eu e minhas irmãs brincávamos de ver quem seria a primeira a avistar o cume nevado. Às vezes, Kili se escondia atrás das nuvens ou a bruma seca atrapalhava a visibilidade. Mas, algumas vezes, para incansável alegria nossa, conseguíamos discernir no horizonte o altivo monte redondo distinguível pela elegância da capa branca que vestia.

A montanha tinha uma aura de onipotência, de eternidade. E agora os cientistas dizem que, dentro de míseros 15 anos, é provável que sua coroa branca desapareça. Puff! Assim. Acabou.

Pensando bem, a capa branca que veste hoje é menor do que aquela das minhas lembranças infanto-juvenis. Mas um Kilimanjaro sem neve? Não consigo imaginar algo tão triste.

E como vai ficar para os escaladores? Vai ser meio sem graça tirar fotos no cume de um Kilimanjaro seco. Apesar de a montanha continuar tendo a mesma altura, tais fotos não impressionarão ninguém. Mesmo porque, devido à poluição atmosférica, daqui a 15 anos subir o monte sem oxigênio vai ficar difícil. Neve tem um je ne sais quoi que impressiona. Imaginem a Antártida sem neve! E tudo isso provocado por nós.

Como é que o homem, supostamente um ser inteligente, continua a cagar na própria porta? Os bichos, na vida selvagem, não fazem isso (apenas aqueles que confinamos em canis e nas cadeias chamadas jardins zoológicos). Hoje, temos mais um exemplo. Quase cinco toneladas de peixes mortos na Lagoa Rodrigo de Freitas. No ano passado, foram 100 toneladas. Em pleno Rio de Janeiro, continuamos esfregando nossos detritos na própria cara. A que se deve isso? Coprofilia?

O homo sapiens pode vangloriar-se de ter o dobro dos genes de uma minhoca. No entanto, uma minhoca não é burra de envenenar o próprio ambiente. Certamente não chegaria ao extremo de acabar com as condições de sobrevivência de sua própria raça.

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