Relato de viagem: Expedição a remo na Amazônia

Tema:Expedições
Autor: Marcelo de Paula/ Código Solar
Data: 24/10/2012

Angelo Corso, Mário Vidal e Marcelo de Paula percorreram a remo a distância entre São Gabriel da Cachoeira e Manaus, no Amazonas. Foram 1100 quilômetros em aproximadamente 45 dias. Confira o relato do início da aventura, quando o pequeno grupo partiu de São Gabriel. O texto é do Marcelo de Paula, fotógrafo, cineasta e diretor da produtora Código Solar.

Em São Gabriel da Cachoeira, com apoio da Prefeitura Municipal, fomos alocados no Hotel Deus me Deu. Foram cinco dias de conforto para os últimos preparativos antes de colocar os caiaques na água e iniciar, em definitivo, a parte principal da Expedição Amazônia: remar de São Gabriel da Cachoeira até Manaus.

Para quem não sabe, o território de São Gabriel da Cachoeira faz fronteira com a Colômbia e a Venezuela e é conhecido como “Cabeça do Cachorro” por sua forma geográfica. Outra particularidade interessante do Município é que o mesmo é cortado pela linha imaginária do Equador, a qual divide a superfície da Terra em dois hemisférios: Norte e Sul. No Brasil, a Linha do Equador corta os Estados de Amazonas, Roraima, Amapá e Pará.

Conduzidos pelo Chefe do Parque Nacional do Pico da Neblina, Flávio Bocarde, Angelo Corso e eu fomos até o marco da Linha do Equador para zerar o GPS (latitude 0º) e registrar presença no local. Angelo demonstrou-se entusiasmado com o seu primeiro cruze na Linha do Equador. “A sensação é maravilhosa de estar aqui tão longe de casa, brincando de botar os pés entre os dois hemisférios!”, disse Angelo Corso.

No meu caso foi uma experiência nova também, pelo fato de ser a primeira vez que cruzo o Equador por terra, pois pelo mar já havia experimentando a proeza algumas vezes, em outras expedições náuticas de travessia do Oceano Atlântico.

Um pouco mais a frente do Marco da Linha do Equador, diante da placa de entrada do Parque Nacional do Pico da Neblina, o Chefe da Unidade de Conservação, Flávio Bocarde, explicou a importância da Reserva que foi criada em 1979 e abrange uma área de dois milhões e duzentos e sessenta mil hectares de Floresta Amazônica.

“O Parque Nacional do Pico da Neblina é uma área gigantesca da região Amazônica, na divisa do Brasil com a Venezuela. Possui uma biodiversidade única e uma grande riqueza sociocultural devido às comunidades indígenas que residem dentro do Parque. Seu Decreto de Criação na década de 70 vem de um momento em que a preservação ambiental começava a ser discutida no Brasil, diante de convenções e acordos internacionais. Mas ainda assim, pela dificuldade de acesso, o Parque é pouco conhecido em termos de pesquisas científicas”, analisou Flávio.

Para se ter uma ideia da importância ambiental do Parque, num contexto que remonta ao processo histórico de dispersão das espécies, o fato de variar da cota 100 aos 2.994 metros o torna um dos desníveis mais abruptos do bioma amazônico, gerando uma forte influência na biodiversidade do entorno que funciona como um centro dispersor de espécies dentro da Bacia Amazônica. Também há registro de muitas espécies que só existem aqui, que chamamos de endêmicas. São indícios de que ainda existem muitas outras espécies a serem descobertas pela ciência. Em termos geológicos seu elevado complexo de montanhas é denominado Escudo das Guianas, as cordilheiras e tepuis aqui presentes são considerados um dos terrenos mais antigos do planeta, com ápice de 2.994 metros de altitude no Pico da Neblina.

Concluindo seu raciocínio, Flávio Bocarde falou ainda que o fato do Parque estar inserido num mosaico de áreas protegidas: quatro Terras Indígenas, três unidades nacionais de conservação e uma internacional (Parque Nacional Serrania de La Neblina, Venezuela) torna a região emblemática e com uma administração mais complexa, onde o próprio País vem aprendendo a lidar com essas situações. “É um desafio muito grande promover a gestão ambiental do Parque em sintonia com o direito de usufruto das populações indígenas, respeitando-se seus modos de vida e liberdade em seu próprio território”, finalizou o Chefe do Parque Nacional do Pico da Neblina, o pico mais alto do Brasil.

Para entender melhor essa questão, vale informar que São Gabriel da Cachoeira é o município mais indígena do Brasil, considerado como o berço cultural dos Povos Indígenas do Alto Rio Negro, distribuídos em 23 etnias e quatro grupos lingüísticos: Tukano, Aruak, Maku e Yanomami.

E foi justamente bebendo dessa cultura que a equipe da Expedição recebeu mais um importante membro: o barqueiro Leonardo Teles, índio da Nação Tariana, que passou a formar dupla comigo numa canoa com rabeta, um pequeno motor de popa, que passou a acompanhar os caiaques de perto e muito ajudou ao meu trabalho, pois passei a filmar e fotografar com uma visão externa da ação esportiva.

A indicação de Leonardo também veio através das Nações Indígenas de São Gabriel da Cachoeira: Marino Lima Fontes, Secretário Municipal de Interiores, da Nação Baniwa, e João Porfírio Pimenta Neto, Assessor da Secretaria Municipal de Turismo e Meio Ambiente, da Nação Baré. Ambos foram de extrema importância no auxílio à Expedição. Utilizaram veículo próprio para transportar equipe e equipamentos, buscaram apoios, recursos, barcos e possíveis profissionais para nos guiar Rio abaixo.

“Na minha opinião é muito importante ver a divulgação do nosso Município através de uma importante expedição esportiva. Gostaria de poder ajudar ainda mais!”, disse o Secretário de Interiores Marino Lima Fontes.

Na mesma linha de pensamento, João Neto informou que “o município é muito carente em termos de divulgação e por isso o apoio público deveria ser o maior possível para um evento raro como esse. Gostaria de aproveitar para pedir mais eventos como esse na cidade, dar as boas vindas aos membros da equipe e pedir que retornem mais vezes”, concluiu.

Angelo Corso agradeceu o apoio com as seguintes palavras: “quando a gente sai de casa, enfrenta uma série de dificuldades que duplicam numa expedição como essa. Então começar a viagem com amizades dessas, como a do Lima e do João, é muito importante”.

Mário Vidal também demonstrou-se grato com todo o apoio que foi dado. “Apenas uma palavra simples que implica muita coisa: obrigado!”

Caiaques devidamente abastecidos com equipamentos e comida, encontros e despedidas realizadas, barco e barqueiro a postos, é hora de cair na calha do Rio Negro!

Partiu Expedição Amazônia!


Relembre o a primeira parte deste relato, quando os aventureiros viajaram do Rio de Janeiro a Manaus, e de Manaus a São Gabriel da Cachoeira:

Nesta reportagem:

» Relato de viagem: Expedição a remo na Amazônia
» Relato de viagem: O primeiro dia de uma expedição a remo na Amazônia





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