Conversamos com Margi e Gerard Moss sobre o Projeto Sete Rios. Confira

Tema:Expedições
Autor: Redação 360 Graus
Data: 26/6/2007

'Projeto-mãe' - “Sete Rios” é a continuidade do premiado Projeto Brasil das Águas que em 2003 e 2004 usou uma tecnologia inovadora para coletar amostras de água doce em 1.160 pontos espalhados por todo o território brasileiro a bordo de um avião anfíbio. Com objetivo de envolver os ribeirinhos e usuários na proteção de seus rios, o piloto e engenheiro Gérard Moss e sua esposa Margi, fotógrafa, junto com membros da equipe, estão finalizando os sete rios selecionados em regiões diferentes do país como o Rio Araguaia, Rio Grande, Rio Guaporé, Rio Ibicuí, Rio Miranda, Rio Ribeira e Rio Verde.

Confira abaixo a entrevista especial para o 360 Graus, com Gerard e Margi Moss sobre o que viram e as análises de toda esta expedição:


360 Graus - Até agora qual foi a maior dificuldade da equipe no Projeto 7 Rios?
Gerard e Margi Moss - Em termos físicos, dois pequenos problemas: corredeiras em alguns rios (os barcos da expedição não são feitas para encarar corredeiras!), e outro problema que, por exemplo no Rio Verde (MT) agora, é encontrar um lugar para tirar a lancha da água!

360 Graus - No Rio Ibicuí a quantidade de água realmente assusta. Para vocês ao ver de cima esta realidade, o que nos contam? O que poderia realmente ser feito?
Gerard e Margi Moss - Quando navegamos pelo Ibicuí, tivemos muita sorte... uma semana antes tinha chovido muito, e a semana que passamos no rio, céu azul todo dia. Lindo. No verão, realmente, o Ibicuí abaixa muito - de um lado, isso deixa muitas praias belíssimas para a gente curtir, mas em certos anos quando a chuva é pouca, vira um problema porque as águas do rio são muito usadas na irrigação dos arrozais encontrados ao longo do rio. Assim, tem dois fatores complicados: é logo na seca quando há pouca água que os arrozeiros precisam tirar mais água do rio.

360 Graus - O que está sendo feito pelo governo, Estado, moradores. Enfim alguém faz algo para visar melhorias?
Gerard e Margi Moss - Em muitos lugares, principalmente inspirados por moradores mesmo, ótimas ações estão sendo implantadas. Não adianta sentar e esperar que o governo federal faça alguma coisa para, por exemplo, replantar mata ciliar. Pensa bem: não foi o governo que desmatou, porque teria que replantar. Eu sou a favor das pessoas serem mais responsáveis por suas açãos. Desmatou onde não devia? Então, replante!

As leis com respeito à faixa de mata ciliar que é obrigatório deixar são muito claras. Já encontramos muitas pessoas que reclamam que o governo não dá as mudas. Porque teria que dar? É como se alguém é flagrado roubando um champú e reclamar que o governo não dá o champú. Em muitas regiões do Brasil, não é preciso plantar mudas para que a mata ciliar volte. Apenas cercar a área, não deixar o gado entrar e não roçar. A mata vai voltar sozinha. Claro, se plantar mudas e cuidar delas, vai voltar mais rápido.

Outro grave problema em todos os rios é o despejos de esgotos domésticos. Apenas 5% desses esgotos são tratados no Brasil. Isso é um absurdo num país de tantos ribeirinhos. Faz sentido sujar a água que a gente precisa para beber? Mas tratamento de esgoto não entra em agenda política, instalação de rede coletora é caro e trabalhoso, sem oba-oba para aparecer na frente dos eleitores.

Então, a população reclama da poluição dos rios, mas não cobra ação das municipialidades. Preferem sempre que a prefeitura gaste fortunas instalando ciclovias ou trazendo grupos sertanejos para tocar na praça no fim de semana. Mas como o meio ambiente está cada vez mais presente em nossas vidas, tenho confiança que as coisas vão melhorar sim! As pequenas cidades fazem mais do que as grandes, mais ricas. Felizmente, não estão copiando São Paulo ou Rio de Janeiro ou Curitiba (que tenta se passar por uma cidade ecologicamente correta mas não age assim para com o rio Iguaçu).

360 Graus - O impacto ambiental tem sido ultimamente o foco de notícias em jornais, revistas, internet. Para vocês o que mais assusta? E, o que já viram que mais assustou vocês até os dias de hoje nas etapas.?
Gerard e Margi Moss - Um impacto que assusta simplesmente porque é muito evidente, salta aos olhos, é o lixo. O Araguaia é um belíssimo rio que em julho recebe milhares de turistas que acampam, curtem etc. mas muitas vezes quando vão embora, deixam o lixo nas praias para o rio limpar na cheia.

As cidades ribeirinhas, como Aruanã, fazem conscientização ambiental, mas, puxa vida, essas pessoas que vêm poluir o rio não são de Aruanã, são de Goiânia, Brasília etc etc. Mas nada se compara à cena que nos esperava em Macapá no domingo, final do dia.

A praia do Tucunaré, em frente à cidade, era um lixo só. Isso é imperdoável. Não podem alegar "falta de informação". Todos sabem. Veja o exemplo do rio Miranda (MS), um rio pantaneiro. Falando de lixo, era o mais limpo que navegamos. Isso porque os ribeirinhos e pescadores catam lixo cada vez que vão ao rio, para vender. A reciclagem será nossa salvação das latinhas e das garrafas PET, mas que vai nos salvar do mar de sacos plásticos, copos plásticos, prato plásticos... eis outra conveniência moderna que virou praga pela preguiça e pelo mau uso.

360 Graus - Vocês acham possível ter alguma alternativa para a escassez da água e uso incorreto, permitindo que todos tenham acesso a uma água limpa??
Gerard e Margi Moss - Valorizar a água. Acho que cada residência tem que ter direito a certa quantia por mês, o básico. Acima disso, tem que cobrar mesmo, bem alto. Quem quiser trocar a água da piscina cada semana, ou encher uma banheira todo dia, ou ficar 30 minutos no chuveiro, então que pague, e caro! É preciso lavar o carro TODOS OS DIAS? Não!

Acho que tem de ter uma cobrança maior ainda sobre as indústrias, e sobre os irrigantes que, eles sim, consomem quase 70% da água usada no Brasil. Usam sistemas de irrigação ineficientes, inapropriados, mal regulados e irrigam em pleno sol de meio-dia. Com que direito podemos falar para as crianças desligar a torneira ao escovar os dentes, se os irrigantes desperdiçam toneladas de água, e por aí vai....

360 Graus - Vocês acham que o homem tem idéia do prejuízo e da possibilidade de escassez da água?
Gerard e Margi Moss - É muito dificil essa ficha cair no Brasil. Brasil é um país de águas. Porque? Por causa da Amazônia. Se continuarmos a desmatar a floresta, haverá consequências sérias no sul e centro-oeste do país, sem falar na própria Amazônia. Mas estamos numa onda yanqui, só queremos pensar no imediato, no lucro fácil.

Desmatar a floresta para plantar gasolina verde. Fornecer gasolina verde para o mundo? Acho um absurdo total e um tiro no próprio pé. Para agradar a um bando de poluidores lá fora, (que eles sim poderia começar a consumir menos, comprar carros menos gulosos, ir de ônibus...) e enriquecer a um pequeno bando de fazendeiros já ricos (com empréstimos tirados dos cofres públicos) vamos arrasar com nosso país. Acho que falei demais... vão dizer que sou o bagre do rio Madeira.





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