A Inveja

Autor: Marcos Pontes
Website: www.marcospontes.net
Data: 21/3/2007

Era sábado. Dia de futebol com os amigos.

Levantou cedo. Preparou a bolsa. Tudo cuidadosamente bem dobrado. Cada coisa no seu lugar. Tomou banho. Pendurou o roupão azul atrás da porta. Guardou o chinelo no armário. Fez café. Leu o jornal. Dia claro de sol. Sábado, finalmente! Márcio Roberto era metódico. Do tipo que vive a cada minuto, comandado pelo seu “Palm”. Trabalhava duro. Esperava o final de semana. Assim passavam os meses, riscados na rotina do calendário na geladeira. A vida seguia sem alterações. Ano após ano na mesma função: um dos advogados de uma grande firma de direito. Nunca conseguira a promoção tão sonhada. Era estudioso e organizado, mas faltava-lhe algo mais.

Precisamente às sete horas e cinqüenta minutos, acordou Andréia, sua linda esposa. Ela, professora, mantinha-se sempre em plena forma. Malhava horas a fio, todos os dias. Um tipo de fuga. Uma maneira de suportar a situação de não poder mais exercer sua profissão devido aos ciúmes doentios do marido.

Na saída, beijou Andréia na testa, olhou para o relógio, pegou a bolsa, as chaves penduradas e seguiu. Ela, como de costume, o acompanhou até a porta. Nesse instante, o celular de Andréia tocou sobre o balcão da sala de jantar. Ele continuou a caminhar, ela atendeu. Márcio ainda pode ouvi-la falar “alô” várias vezes antes de entrar no elevador. O juiz apitou o final do primeiro tempo. O calor estava forte. ― Este verão está de se matar! ― gritou, enquanto jogava água sobre a cabeça, como um chuveiro.

No intervalo, a conversa entre Márcio e Danilo, um velho amigo de trabalho, girou em torno da demissão de Paulo. ― Viu só! Finalmente nos livramos dele! ― comemorou Márcio.
― Realmente! Nos últimos meses o chefe o chamou várias vezes. Na semana passada pegou as coisas da mesa e nunca mais voltou ― disse Danilo. ― Imagine a cara dele quando o chefe descobriu... ― Fique quieto! Esqueça que fizemos isso! Se alguém descobre, nós é que seremos despedidos ― interrompeu Danilo, olhando preocupado a sua volta.

Paulo era um jovem advogado, extremamente competente e carismático. Chegou na empresa há pouco tempo e rapidamente conquistou a confiança de toda a diretoria. Márcio não se conformava com o sucesso de Paulo. A inveja era, sem dúvida nenhuma, um dos grandes defeitos de Márcio. A cada elogio que ouvia sobre Paulo, ele se corroia todo por dentro. Passava muitas horas do dia imaginando como atrapalhar a carreira de Paulo. Isso muitas vezes o fazia ficar atrasado com o seu próprio trabalho. Sua vida era amarga. Criticava qualquer coisa sobre Paulo. Sentia-se melhor. Acabou esquecendo que poderia ser mais feliz usando seu tempo em prol de si mesmo, das suas próprias realizações.

― Mas quem se importa! O importante é que ele está no olho da rua! ― comemorou novamente Márcio.
Naquele instante, os dois notaram uma presença estranha próxima do campo. Uma mulher, sozinha, chorando de soluçar. Era a esposa de Paulo! Mas o que ela estaria fazendo ali?
― Algum problema? ― perguntou Márcio.
― Sim! Tudo errado! ― desabafou a mulher em prantos. ― Onde está o Paulo? ― perguntou Danilo.
― Não sei! Todos os sábados ele sai para jogar futebol. Diz que vem aqui. Eu nunca desconfiei de nada, mas de uns meses para cá ele anda muito estranho, distante. Não quer nada comigo. Diz que está cansado e me evita.

Márcio e Danilo sabiam que havia algo errado. Paulo nunca esteve no futebol. Contudo, com pena, Danilo mentiu: ― Ele saiu mais cedo. Foi ao “shopping”. Não se preocupe, é apenas uma fase ruim do casamento, logo passa.

― Eu também pensei que fosse. Achei que era apenas o stress com a promoção na empresa, pela responsabilidade de assumir a chefia da nova filial. Mas, ontem à noite, enquanto arrumava as roupas dele, eu achei, por acaso, a conta do celular no bolso do paletó e.... ― a mulher disparou a chorar novamente.

Márcio olhou para Danilo em espanto. Ele não foi despedido! Ele foi promovido! Tornou-se chefe de uma filial inteira! ― E daí? O que havia na conta? ― pergunta Márcio, já com a inveja borbulhando no estômago.

― Tinha um número! Um número que se repetia várias vezes. Muitos minutos de conversa na semana e, infalivelmente, uma ligação curta no sábado, exatamente às oito e quinze da manhã, justamente no horário que ele deveria “começar o futebol”... ― disse a mulher trêmula, abrindo a mão e mostrando um pequeno pedaço de papel amassado com um número de celular anotado.

― Hoje de manhã, tomei fôlego e liguei para esse número! Oito horas em ponto. Uma mulher atendeu. Fiquei apavorada, sem saber o que fazer. Não tive coragem de dizer nada. Desliguei. Ele tem outra! Ele tem uma amante! ― completou a mulher, chorando e colocando as mãos sobre o rosto.

Márcio reconheceu o número e ficou calado. Sentiu um frio na espinha. O coração batia forte. Raiva, ciúmes, inveja, vontade de chorar....ódio! Enquanto ele tramava na empresa, Paulo era promovido e ocupava, literalmente, o lugar que era dele!

― Como sou burro! ― pensou Márcio, saindo em disparada. Ninguém entendeu nada. Ele não começou o segundo tempo. Dirigia como louco pelas ruas. Não via quase nada. Olhos confusos. Cabeça confusa.

― Maldito! Quanto tempo perdido! Burro! Burro! O trânsito estava horrível. Olhava no relógio a cada minuto. ― Hoje é sábado! Anda gente!

Tinha que chegar logo! Queria encontrar a prova. Uma prova! Mas, o que faria ao chegar lá? Tudo muito confuso na mente. Não conseguia raciocinar. Seus pensamentos estavam mais embotados do que os olhos.

Mudou o caminho usual para evitar o tráfego. Notou que o novo escritório da empresa, a filial que Paulo agora chefiava, ficava a apenas algumas quadras do seu apartamento.

― Maldito! E eu que pensava que estava despedido! O que fiz de errado! Meu Deus? O que foi que eu fiz? Burro! Burro! Chegou! Deixou o carro na rua. Voou para o elevador.

Entrou no apartamento. Esqueceu a porta aberta, a chave jogada sobre o sofá, seu roupão azul sobre a cama, o chinelo, virado, ao lado do tapete. Chuveiro ligado. Andréia tomando banho. Na secretária uma mensagem nova piscava. Era o chefe, dizendo que ele estava despedido, pois descobrira a falsificação dos documentos de um dos clientes de Paulo. Na segunda eles conversariam.

Deixou-se cair pesadamente, suado, sobre a cama. Música suave de piano, o vento na cortina da janela do décimo andar. Faz calor. Esse verão está de se matar.

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