Karajás - Coxim: A Última Cidade do Mato Grosso do Sul

Tema:Expedições
Autor: Marcelo de Paula
Data: 3/7/2006

Embora as estrelas tivessem dado ar da graça na noite anterior, o dia amanheceu chuvoso e frio na cidade de Coxim (MS). O próprio nome do Hotel Rio situa sua localização à beira do Rio Taquari que, junto ao Rio Coxim, forma a principal bacia hidrográfica do Município.

Não escapando a regra geral, iniciamos nossa primeira manhã em Coxim com reuniões referentes à produção. A Diretora de Turismo e Meio Ambiente do Município, Cláudia Nantes, nos recebeu apreensiva com as condições de mau tempo. Após as boas vindas, ela passou todas as informações da produção cinematográfica na cidade. Locações, restaurantes para as refeições (Senzala e Ki-Xodó), apoio da Polícia Militar nos dias de gravações nas principais ruas da cidade, cronograma das saídas de barco, noite musical no Bar Confraria do Piau, com os músicos Kurikaka e Makako e o preparo da feijoada de pintado, um prato típico da cidade, elaborado com o famoso peixe da região.

Escutamos atentamente, anotamos os dados e terminamos a etapa inicial do trabalho numa pequena casa de sucos em frente à Casa do Artesão, onde fica a Diretoria de Turismo. O esconderijo foi descoberto e o suco provado e aprovado durante a viagem de pré-produção.

Antes de ir conhecer a segunda base alimentícia (Ki-Xodó), uma vez que na noite anterior experimentamos a pizza do Senzala, encerramos a manhã profissional num rápido bate-papo com nosso assistente em Coxim, Normando José da Silva, selecionado para participar do filme em janeiro, quando nos acompanhou na escolha dos cenários na cidade.

Com a permanência do mau tempo, voltamos ao Hotel e encaramos a edição de imagens a serem enviadas ao Domingo Espetacular. Edição essa que acabou por ocasionar a transferência de cômodos da equipe. Eu e a Carla Mendes fomos para outro quarto com tv mais moderna e plugs necessários para adequar o equipamento da Código Solar. Passamos toda tarde editando e para não atrasar o trabalho pedimos um bis da pizza do Senzala a ser entregue no hotel.

Só paramos a edição com a ilustre visita da dupla de músicos Kurikaka e Makako no Rio. Vieram dar as boas vindas e acertar os detalhes da apresentação, a ser gravada para o filme, na Confraria do Piau, um simplório e aconchegante bar no centro de Coxim. Coordenado pelo lendário Zé Guedes, o local é ponto de encontro e show dos músicos da cidade e região.

A bem da verdade, as definições do som foram resolvidas com o Luiz Lima, responsável pelo áudio do documentário. Depois da visita musical, o cansaço abateu a equipe e nos recolhemos para o próximo dia.

E, sendo assim, nos levantamos às cinco horas para ir de voadeira para o Letreiro das Monções, nosso primeiro set em Coxim. Marcada para as seis horas a saída do cais do hotel, acabou por não ocorrer. Culpa do barqueiro que não botou fé no horário de trabalho da equipe Karaja – O Filme e só apareceu às sete e meia, inviabilizando a filmagem. Nossa ida para o Letreiro foi adiada para a manhã seguinte, no mesmo horário. Com a transferência do cronograma, ganhamos mais um dia para finalizar a edição das fitas que, posteriormente, viajaram para São Paulo, sede da TV Record. De olho na melhora do tempo, permanecemos o dia inteiro a editar no quarto do Hotel Rio. Saindo apenas para fazer nossas refeições.

Como nada ocorre por acaso, a Diretora de Turismo, Claudia Nantes, não gostou do descaso do horário e trocou de barqueiro. O que acabou sendo bem melhor para nossa equipe. Além de pontual, era excelente piloto de voadeira e conhecedor das curvas do rio. Num novo dia de sol, conseguimos prosseguir com as filmagens. Exatamente às 5:45 da madruga, ele nos aguardava no cais do hotel. E, cá para nós, a importância do horário dizia respeito a duas importantes cenas a serem gravadas: um ninhal de garças, que abandonavam o local na alvorada e a distante localização do Letreiro das Monções no Rio Coxim.

Letreiro das Monções

O Letreiro das Monções são inscrições numa pedra na beira do Rio Coxim, perto da Cachoeira dos Quatro Pés, local de acampamento dos monçoeiros. Movimento de aventureiros, comerciantes e religiosos que, a serviço da Coroa Portuguesa, colonizaram o Pantanal em busca do ouro e na tentativa de escravizar os índios da região. Saiam de São Paulo através do Rio Tietê e depois navegavam pelos principais rios do Pantanal, como o Miranda, Coxim e Taquari.

É possível identificar os Brasões da Coroa Portuguesa, inscrições referentes à primeira expedição que apontam o local como base de acampamento e datas que vão de 1815 a 1820. Ano do início da colonização em Coxim (MS).

A própria história da cidade é escrita do ponto de vista do movimento das Monções. Coxim um dia foi denominada Arraial do Belliago, em homenagem ao monçoeiro Domingues Gomes Belliago, que montou um entreposto comercial numa curva do Rio Taquari, onde, mais tarde, nasceu o Município de Coxim.

Entre ida, filmagens e volta, para o Letreiro das Monções entrar no documentário consumiu um dia inteiro de trabalho da equipe (manhã e tarde). Quando a voadeira iniciou o retorno ao Hotel Rio, ganhamos de presente um lindo pôr-do-sol no Rio Coxim.

Mas nosso dia não acabou aí! A noite ainda estava reservada para gravar a cena do preparo do prato típico da cidade: a feijoada de pintado, que é um peixe muito apreciado em todo o Pantanal. O pintado é uma espécie de bagre, com uma coraça desenhada com linhas e pintas pretas, de carne branca consistente e muito saborosa.

A feijoada de pintado é um prato criado por Lílian Milhomens, proprietária do restaurante Tradição Coxinense, uma simpática casa colada à BR 163, rodovia que corta a cidade. A cena gravada acompanhou, passo a passo, toda a receita de Lílian, que nos confessou ser uma transmutação da famosa feijoada Carioca. Cebola, alho, lingüiça calabresa, bacon, pimenta, salsa, cebolinha, feijão branco e filé de pintado. Mesmo cansados da longa jornada de voadeira até o Letreiro das Monções, valeu a pena gravar com a Lílian Milhomens e depois provar sua deliciosa criação.

Depois de pronto, fui um jantar bem festivo no Tradição Coxinense, regado á cerveja e a viola regional do cantor Genésio. Estavam presentes no restaurante: Claudia Nantes, Gustavo, Luiz Lima, Carla Mendes, Normando José da Silva, Lílian e eu.

Sem abusar do horário, seguimos para o hotel para mais uma noite de sono em Coxim. No quarto dia de filmagem, a cidade em si é que foi nosso cenário. A Polícia Militar nos deu o suporte para interditar ruas e avenidas e remover veículos das locações selecionadas. Quando terminamos essa etapa da produção, partimos para o almoço e um fato curioso ocorreu: nos deparamos no caminho com uma blitz com os próprios policiais que haviam dado suporte nas filmagens. E, por incrível que pareça, fomos parados e pegos sem carteira e documentação da Maria Albina. Uma exigência da rigorosa, mas bela Capitã Itamara. Que nos fez voltar ao hotel e pegar os devidos documentos. Foi engraçado e desconcertante para os dois lados – equipe e polícia. Acostumado ao tráfego tumultuado nas grandes cidades, o trânsito tranqüilo de Coxim fez nossa equipe relaxar com as devidas exigências de quem dirige.

Passada a dura policial, almoçamos na Fazenda Cachoeira das Palmeiras, onde fomos ver de perto o fenômeno natural da Piracema, quando os peixes da região precisam subir os rios e alcançar grandes distâncias para desovarem e completarem o ciclo da reprodução. Dentro da cordialidade e hospitalidade coxinense fomos recebidos de braços abertos pelas donas da Fazenda Cachoeira das Palmeiras, que recebe o nome da cachoeira que se forma dentro da propriedade. Elas prepararam os saborosos peixes pacu e pintado fritinhos na hora. Salada, feijão e bife também acompanhavam o cardápio. O impressionante ver a quantidade e variedade de espécie de peixes que saltavam cachoeira acima. Um verdadeiro espetáculo! (informações – cachoeiradaspalmeiras@hotmail.com)

Deixamos os peixes para trás e voltamos para gravar o depoimento da carinhosa contadora de história da cidade, Dona Eulice Xavier Guimarães, proprietária do Hotel Piracema, o primeiro hotel da cidade. Como comerciante ela relatou o desenvolvimento de Coxim, através da ótica do seu estabelecimento. “Antigamente o turismo do Pantanal era todo voltado para a pesca. Aqui do hotel ouvia-se o barulho dos peixes movimentando-se no rio. Havia até vôo para a cidade para pegar peixe. Mas, a ganância do homem e a falta de cuidados com o meio ambiente, fizeram o peixe praticamente desaparecer da região. Hoje, o turista vem para o Pantanal para ver as belezas naturais e os animais daqui” – afirmou Dona Eulice.

Do Hotel Piracema, relato que fiquei hospedado nele na minha expedição solitária de 1991 e na viagem de pré-produção, em janeiro deste ano. Situado entre o Rio Taquari e a BR 163, o Hotel Piracema em 91 era parada obrigatória dos caminhoneiros que faziam o transporte na região. De lá, com ajuda da família da Dona Eulice, que até hoje administra o hotel, peguei carona com um caminhoneiro conhecido deles para a cidade de Barra do Garças (MT). (tel: 067- 32911610)

Em mais um longo dia de trabalho, passamos no Hotel Rio para um rápido banho e seguimos para nossa última cena do dia. A apresentação da dupla Kurikaka e Makako na Confraria do Piau. Eles cantaram a música Congresso dos Bichos, tema do deslocamento da Maria Albina, cedido especialmente para o documentário Karaja – O Filme. As gravações foram tão concorridas que até o Prefeito de Coxim, Moacir Kohl, e sua esposa Roseli Kohl compareceram no bar mais famoso da cidade. Como ninguém é de ferro, a equipe gravou a cena, guardou os equipamentos e caiu na noitada bebericando algumas cervas geladas.

O quinto dia foi reservado para as baías de Coxim – Barranco Vermelho e Beira Alta. Outra vez na voadeira, partimos cedo para nosso destino. Animais e vegetações típicas do Pantanal e belezas naturais em geral eram nossos objetivos. Bando de curicacas e um solitário tuiuiú, ave símbolo da região, foram o destaque do dia.

No penúltimo dia na cidade, gravamos na criação de avestruzes da Fazenda Amaralina. Para quem não sebe, embora em fase inicial, o Brasil é hoje o segundo maior criador de avestruz do mundo, perdendo apenas para a África do Sul. Segundo Sr. Alfredo Baganha Filho, desde a carne (baixo teor de colesterol), plumagem para adornos e roupas, pés, ovos e suas cascas para enfeites caseiros, tudo é aproveitado do animal. (fazendaamaralina@viapantanal.com.br)

Para fechar Coxim com chave de ouro, escalamos a Serrinha do Pantanal para filmar, do alto, o lindo visual do Rio Taquari serpenteando a região do Pantanal. Ainda nas proximidades da Serrinha, visitamos o Rio Pinturas Rupestres, que secou há tempos e nos permitiu caminhar alguns quilômetros pelo seu leito, até chegar numa cavidade junto a uma grande pedra, onde se encontram várias pinturas rupestres que, segundo especialistas, datam de oito a dez mil anos atrás. Essas pinturas foram encontradas por técnicos do Consórcio Intermunicipal para o Desenvolvimento Sustentável da Bacia do Rio Taquari. O local é tombado e ao mesmo tempo abandonado pelo IPHAN. Longe das águas, foi o dia mais quente da nossa produção em Coxim.

Com os objetivos cumpridos da produção em Coxim, a última cidade no Estado de Mato Grosso do Sul, nossa equipe encerrou os trabalhos degustando um suculento churrasco oferecido pela família da Diretora de Turismo, Claudia Nantes. Como era domingo, assistimos outro capítulo da Expedição Karaja – O Filme no programa Domingo Espetacular, da Record.

De mochilas arrumadas, equipamentos guardados e Maria Albina abastecida, fomos dormir a derradeira noite no Hotel Rio com a sensação de dever cumprido na cidade.

Cruze de Estados do Mato Grosso do Sul para o Mato Grosso, mudança de visual do Pantanal para o Cerrado, Maria Albina passando por dentro de uma enorme comitiva, Serra do Roncador e seu envolvimento com a história do Brasil. Não percam nosso próximo boletim – de Coxim (MS) para Nova Xavantina (MT).

1) Box Monções - Pelo Tratado de Tordesilhas, de 1494, quase todo o Pantanal pertencia à Espanha. Jesuítas espanhóis criaram os primeiros núcleos de habitação na extensa planície. Depois foram expulsos pelos Bandeirantes Paulistas apoiados por Portugal. Mão-de-obra escrava indígena e pedras preciosas geravam grande interesse.

A descoberta do ouro acelerou o povoamento do Centro-Oeste. Em 1748, Portugal criou a Capitania de Mato Grosso, construindo um eficiente sistema de defesa para garantir sua nova fronteira e assegurar as reservas extrativistas brasileiras.

Comerciantes e aventureiros, a serviço da Coroa Portuguesa, subiam o rio na direção de Cuiabá, em busca do ouro, demais metais preciosos e exploração da mão-de-obra escrava dos índios da região do Pantanal. Os monçoeiros utilizavam o Rio Tietê como via de acesso para os rios do Pantanal. Sendo o Miranda (Miranda - MS), o Coxim e o Taquari (Coxim – MS) e o das Mortes (Nova Xavantina –MS), rios pelos quais a Expedição vai passar.

2) Box Coxim (MS) - Arraial do Belliago (Domingues Gomes Belliago – monçoeiro fundador da cidade de Coxim), hoje Coxim, foi o primeiro povoado do Estado do Mato Grosso do Sul. Às margens do Rio Taquari, a cidade era um entreposto comercial que servia de base para as Monções. Movimento fluvial de aventureiros, missionários, soldados da Coroa e toda espécie de exploradores, que desbravou e expandiu o País, motivado pelo sonho dourado do ouro.

Banhada pelos Rios Taquari e Coxim, a cidade viveu o apogeu do turismo de pesca, quando o Pantanal foi altamente explorado sem nenhum controle, levando uma diminuição drástica da quantidade de peixe na região. Hoje, com maior controle sobre a pesca predatória, o turismo da cidade começa a ganhar novos ares com a descoberta das potencialidades naturais voltadas ao eco-turismo.





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