Filme Karajás - Bauru e o Trem do Pantanal

Tema:Expedições
Autor: Marcelo de Paula
Data: 6/6/2006

A produção em Bauru começou às 5 horas da manhã. Eu e o operador de áudio Luiz Lima tínhamos de resolver a cena de abertura das imagens da cidade no filme. Bauru entrou no roteiro do documentário para retratar a desativação do Trem do Pantanal, que saía do município e cruzava o pantanal até Corumbá, cidade do Mato Grosso do Sul, localizada às margens do Rio Paraguai.

Então, voltando ao frio das 5 horas da manhã, a tomada era no topo do edifício Caravelas. Um prédio bem alto, no centro de Bauru, com linda vista para a cidade, enquadrando nosso tema no filme: a Estação de Trem, a qual embarcava-se no saudoso Trem do Pantanal rumo às cidades pantaneiras de Três Lagoas, Campo Grande, Aquidauana, Miranda e Corumbá. Viagem a qual fiz, solitariamente, em 1991. A mesma que, 15 anos depois, me traz de volta a região para fazer um paralelo comparativo desse hiato no tempo.

E o vento soprava gelado por nossas orelhas. Enquanto o sol não saiu, o frio nos congelava. Esperamos pacientemente para ver os primeiros raios solares amarelando o prédio da Estação Ferroviária. Foram aproximadamente 45 minutos para terminar a filmagem. Sem café da manhã ainda, eu e Luiz víamos a névoa nos vales da cidade.

Aquele frio nos consumiu! Com os dedos e a face congelados, descíamos as escadas do último andar do prédio só pensando no café do hotel, quando fomos surpreendidos na portaria do edifício Caravelas, pela administradora do prédio, dona Silvia, nos oferecendo um delicioso pão-de-mel caseiro, feito por ela mesma. Estava quentinho e desmanchava na boca. Foi um santo pão-de-mel!

Chegamos ao Saint Martin e encontramos com a produtora Carla Mendes no café do hotel. Eu e Luiz, literalmente, atacamos as guloseimas. Dali para a Kombi e descemos na direção da Estação Ferroviária, cenário do filme por dois dias. O dia era bem corrido e cheio.

Na Estação encontramos com nossos dois primeiros assistentes do documentário Karaja – O filme. Henrique Aquino, de 12 anos de idade e Ivan Vinagre, estudante de 17 anos que vai prestar vestibular para cinema no fim do ano. Jovens que nos procuraram e mostraram interesse em vivenciar, durante dois dias, os bastidores e trabalho dos sets de gravação do documentário.

Acredito, tenha sido uma ótima oportunidade para ambos os lados. Para nós, como uma forma de contra-partida de estimular jovens ao ofício cinematográfico e, para eles, um momento de aprendizado e contato com a realidade cinematográfica. Os meninos foram a fundo no trabalho. Acordaram cedo, gravaram horas seguidas e nem reclamaram.

Além de Ivan e Henrique, a imprensa de Bauru também acompanhou as filmagens. Foi preciso interromper o trânsito de algumas ruas de acesso à Estação Ferroviária de Bauru na parte da manhã, enquanto gravávamos a parte externa da desativada Estação. Depois do almoço tudo correu mais serenamente, porque nossos cenários passaram para parte interna da Estação, entre vagões e trilhos abandonados.

Foi triste ver a Estação vazia, sem turistas, peões de gado, índios e muita carga como outrora. Em 1991, a Estação do Trem do Pantanal fervia de pessoas das mais variadas. A primeira vez que atravessei o pantanal foi de trem. Bauru era o inicio da viagem. A porta de entrada do meio urbano para o natural, do pantaneiro para o concreto urbano. A viagem era fantástica!

O trem saía de Bauru, atravessava o Estado de São Paulo e quando cruzava a ponte do Rio Paraná, imediatamente a paisagem acusava a mudança do Sudeste para o Centro-Oeste. Havia uma grande disputa para pegar os melhores lugares, nas plataformas entre os vagões ou nos janelões do próprio trem. Receber a brisa no rosto e observar o trem fumegante serpenteando os trilhos mata adentro, era uma dádiva. Isso, sem contar a quantidade de animais da região que era possível admirar, ao longo do percurso. Eu mesmo fiz essa viagem três vezes.

Até hoje não dá para entender o porquê da Noroeste do Brasil ter sido desativada. Em 1994, justamente no ano em que ela bateu recorde de transporte de carga, se igualando, inclusive, a marcas semelhantes aos países mais desenvolvidos como França, Inglaterra e Japão, ela foi privatizada, propositalmente desativada e sucateada. Pior ainda, a Noroeste do Brasil auxiliava no manejo do gado no pantanal, quando ocorriam as cheias na região.

Fazia o controle da febre aftosa, porque só permitia embarque para transporte de animais devidamente vacinados, empregava inúmeras pessoas e foi um dos maiores responsáveis pelo desenvolvimento econômico de várias cidades e estados brasileiros.

Por isso tudo citado, a desativação do Trem do Pantanal não podia passar em branco num documentário que retrata o Brasil central e um pouco da história da região do pantanal com preâmbulo para entender a localização geográfica dos Índios Carajás da Ilha do Bananal.

Ainda em Bauru, nosso segundo dia de gravação seguiu os trilhos do trem. Para não deixar morrer a memória viva do Trem do Pantanal na cidade, a Secretaria de Cultura do Município realiza um pequeno passeio com uma Maria Fumaça original da áurea época da Noroeste e mantém o Museu Ferroviário com peças, fotos, uniformes, louças e demais utensílios.

Gravamos esse passeio e depoimentos com os ex-maquinistas da Noroeste, José Roberto e Alberto Soares, que apontam a política de privatização do Presidente Fernando Henrique Cardoso, como principal vilã na desativação e sucateamento do Trem do Pantanal.

Para comemorar o sucesso dos dois dias de gravações em Bauru, com muito sol e a equipe da Código Solar conseguindo resolver todas as cenas programadas na longa produção, deu para tomar um chope no Jeribá Bar!





© Copyright 1998 - 2012 - 360 GRAUS MULTIMÍDIA
Proibida a reprodução integral ou parcial, para uso comercial, editorial ou republicação na Internet, sem autorização mesmo que citada a fonte.

Compartilhe:


Livros:

Equipamentos:

  • Parati: charmosa, elegante e cheia de histórias de aventuras
    Lugares
    Parati: charmosa, elegante e cheia de histórias de aventuras
  • Parque Nacional de Monte Roraima
    Parques
    Parque Nacional de Monte Roraima
  • Rota dos Sonhos: trilhas, cultura e muita aventura
    Lugares
    Rota dos Sonhos: trilhas, cultura e muita aventura
  • Parque Nacional Marinho dos Abrolhos
    Parques
    Parque Nacional Marinho dos Abrolhos
  • Parque da Restinga de Jurubatiba. Equilíbrio Biológico Global
    Ecoturismo
    Parque da Restinga de Jurubatiba. Equilíbrio Biológico Global
  • Penedo: conheça a bela 'pequena Finlândia' do Brasil
    Ecoturismo
    Penedo: conheça a bela 'pequena Finlândia' do Brasil