Entrevista com Marcos Pontes, o astronauta brasileiro

Tema:Expedições
Autor: Chris Bueno
Data: 1/8/2005

Marcos Pontes conseguiu realizar o sonho da maioria das crianças do mundo todo: ser astronauta. A realização do sonho é uma conquista não só pessoal para o tenente-coronel aviador da Força Aérea Brasileira (FAB), mas também nacional: ele é o primeiro astronauta do Brasil, e de todo o Hemisfério Sul – um verdadeiro marco para a história dos países abaixo da Linha do Equador. Marcos nasceu em Bauru, no interior de São Paulo, e suas maiores lembranças de infância são as visitas ao Aeroclube de Bauru para ver a Esquadrilha da Fumaça, e à Academia da Força Aérea (AFA) onde seu tio servia como membro da equipe de manutenção de aeronaves. Foi aí que começou a dar asas a seus sonhos. Porém, o início de sua carreira foi bem difícil: começou a trabalhar como eletricista com apenas 14 anos de idade para pagar seus estudos no colégio técnico de eletrônica e teve que estudar muito até entrar para a Força Aérea. A partir daí, Marcos não parou mais: formou-se piloto militar, foi instrutor da aviação de caça, líder de esquadrilha, e voou em praticamente todos os aviões da FAB. Marcos nunca parou de estudar: cursou Engenharia Aeronáutica no ITA e fez mestrado em Engenharia de Sistemas em Moterey, na Califórnia, onde também faz doutorado. Foi essa combinação de teoria e prática, engenharia e vôo que o tornou o candidato ideal a representar o país quando o Brasil abriu uma seleção de astronautas em 1998. Hoje, ele mora com a família no Texas (EUA), onde faz o treinamento para astronautas na Nasa, em Johnson Space Center em Houston, e deverá voar para a Estação Espacial Internacional (EEI) no próximo ano, a bordo de uma espaçonave russa.

Confira entrevista exclusiva com Marcos Pontes, o astronauta brasileiro!


360 Graus - Em qual momento você sentiu que teria chances de se tornar um astronauta?
Marcos Pontes - Eu sempre tive o sonho de voar, sonho este que me sustenta até hoje. Eu pensava em ser piloto da FAB. Ser astronauta parecia meio fora de alcance. Comecei como eletricista da RFFSA aos 14 anos em Bauru,SP como forma de pagar meus estudos no colégio técnico de eletrônica. Depois fui aluno do SENAI. Entrei para a Força Aérea, me formei como piloto militar, fui instrutor da aviação de caça, líder de esquadrilha, e oficial de segurança de vôo, trabalhando em diversas investigações de acidentes aéreos e fazendo campanhas de prevenção. Fiz o vestibular do ITA e cursei 5 anos para me formar engenheiro Aeronáutico. Fiz o curso de piloto de provas de aviões. Voei praticamente todos os aviões da FAB e alguns interessantes no exterior como o F-15, F-16, F-18 e MIG-29. Fui convidado ao mestrado em engenharia de sistemas e comecei o doutorado na mesma área em Monterey, California. O Brasil, em 1998, entrou no programa da EEI (Estação Espacial Internacional) e abriu uma seleção de astronautas para representar o país. Então achei que teria chances, por me sentir bem preparado, e fiz minha inscrição para a seleção de astronautas e fui escolhido.

360 Graus - Quais são os pré-requisitos para ser astronauta?
Marcos Pontes - Determinação, Paciência e Trabalho em equipe (gostar muito de pessoas e fazer tudo para ajudar a todos). Os astronautas em geral possuem uma formação bastante diversificada; cursos como: engenharia, física, medicina, química são algumas das possibilidades. Áreas como letras, direito, administração, etc, estão fora da lista das possíveis opções para a carreira de astronauta. Cursos de pós-graduação, mergulho, pilotagem, pára-quedismo e outras atividades ligadas à profissão contam muitos pontos para a seleção. Além disso, é necessário ser qualificado no exame médico, no exame físico, psicológico, ter bom senso de relacionamento e saber trabalhar em equipe.

360 Graus - Como é ser o primeiro astronauta brasileiro na Nasa e como você conseguiu chegar lá?
Marcos Pontes - Acredito que possa ser exemplificado pela satisfação que teria um sobrevivente sedento ao abrir um caminho em uma mata fechada e conseguir chegar, finalmente, a uma clareira com uma fonte de água límpida. Cansado, suado, com as roupas rasgadas e o rosto sangrando das lambadas e espinhos do caminho que abriu, ele olha para trás e vê, com um sorriso de vitória, que os outros sobreviventes o seguiram e já estão cruzando o caminho aberto por ele. Sou o primeiro, mas não quero ser o único ou último. Tenho um orgulho muito grande de poder representar o Brasil em uma missão tão importante para o nosso desenvolvimento tecnológico e científico. Estarei indo ao espaço fisicamente sozinho, mas tenho certeza que a Nação brasileira estará comigo e isso me deixa muito feliz.

Estou na NASA há sete anos. Não é fácil descrever com palavras qualquer sentimento de ser o primeiro astronauta formado pela NASA do Hemisfério Sul. É uma vitória ter chegado até aqui depois de ter passado por um longo caminho, e o melhor é saber que haverá um caminho já aberto para os jovens seguirem para depois trilharem o seu próprio.

Ser astronauta foi um projeto que se desenvolveu ao longo da carreira de piloto. Estudei muito para alcançar meus objetivos. “Tudo é possível”, basta vontade e persistência. O acesso ao conhecimento, através de instituições como o SENAI e a FAB, foi o que me permitiu seguir meu caminho, de uma infância pobre em Bauru até aqui.

360 Graus - Como é sua rotina de treinamento na Nasa?
Marcos Pontes - O treinamento é diário e bastante diversificado. Existem simuladores que funcionam 24 horas por dia, mas as tripulações já escaladas para vôos têm prioridade. Assim, quando eles estão em uso, ficamos mais dedicados ao trabalho técnico. No meu caso, é dedicado à gerência do programa no Brasil e testes de integração de módulos. Quando usamos os simuladores, recuperamos o tempo. E isso pode ser em qualquer horário, até mesmo de madrugada.

Ele começa com aulas sobre o sistema, suas modificações, limitações e operações em condições normais e de emergência. Depois temos simulações e treinamentos práticos, que incluem vôos em aeronaves supersônicas, sobrevivência, trabalhos de campo, atividade extraveicular e robótica. Também aprendemos a preparar comida e a usar os sanitários.

360 Graus - Agora, existem grandes chances de você participar de um vôo de uma aeronave russa até a Estação Espacial Internacional. Como estão as negociações?
Marcos Pontes - A AEB (Agência Espacial Brasileira), autarquia do Ministério da C&T, tem mantido negociações com a Rússia de forma que eu possa realizar o histórico primeiro vôo espacial brasileiro no ano que vem (2006). A Rússia, assim como os EUA, é um dos parceiros do programa da Estação Espacial Internacional, projeto do qual o Brasil faz parte juntamente com mais 15 países de grande projeção no cenário mundial de alta tecnologia (veja detalhes do projeto em www.marcospontes.net). Os dois caminhos para o espaço e a realização de experimentos na EEI são possíveis para o Brasil. A possibilidade de vôo pela Rússia está sendo analisada por razões logísticas e operacionais pela administração da AEB.

Eu acompanhei uma reunião entre as duas agências com objetivo de responder à questões relacionadas com a parte operacional do meu treinamento realizado na NASA. Todas as negociações estão sendo extremamente bem conduzidas pelo Presidente da AEB (Agência Espacial Brasileira), o Dr. Sérgio Gaudenzi. Segundo a AEB, os entendimentos foram iniciados em outubro do ano passado por ocasião da Reunião de Alto Nível Brasil - Rússia, realizada em Moscou. Na época, a delegação brasileira foi chefiada pelo vice-presidente José Alencar. Eu tenho 7 anos de preparação para ser o brasileiro responsável por levar a nossa bandeira nacional pela primeira vez em um vôo orbital. Estou a serviço do meu país e vejo essa possibilidade russa como uma excelente oportunidade para o País de realizar esse objetivo nacional, em especial no ano do Centenário do Vôo histórico do 14 bis de Santos Dumont. Nada melhor que um outro evento histórico para celebrarmos “perante ao mundo” a nossa participação essencial no pioneirismo da aviação mundial.

360 Graus - Se tudo der certo, quando você realizará seu vôo?
Marcos Pontes - Por enquanto tenho apenas informação de período (entre abril de 2006 até setembro de 2007). A data com precisão está sendo negociada entre a Agência Espacial Brasileira (AEB) e a Agência Espacial Russa (Roskosmos). A AEB acredita que o ano de 2006 seja bom porque é o ano de centenário do vôo de Santos Dumont no 14 Bis. Acho ótimo, porque sou o maior fã dele e quero inclusive levar o chapéu de Santos Dumont para o espaço. Quando a data sair, quero que uma bandeira brasileira circule por todo o Brasil para que as pessoas a toquem. Quero levá-la ao espaço para que os brasileiros sintam que estão participando também.

360 Graus - Qual é sua missão na Estação Espacial Internacional?
Marcos Pontes - Minha missão deverá ser um vôo de montagem e manutenção da EEI com a execução de experimentos científicos brasileiros. Sou um astronauta do tipo "especialista de missão", cujas funções no espaço envolvem todas as atividades, excluindo a pilotagem do veículo que é função do comandante e do piloto que, nos casos dos ônibus espaciais são sempre americanos e nos casos do Soyuz são sempre Russos. Todos os detalhes são definidos na programação da missão, a partir do momento da escalação do vôo, o que acontece cerca de um ano antes da decolagem.

360 Graus - O que você levará em seu vôo inaugural?
Marcos Pontes - Pretendo levar o relógio de pulso e o chapéu de Santos Dumont, prestando uma homenagem no espaço, 100 anos após o seu primeiro vôo, demonstrando assim literalmente perante o mundo todo, a capacidade técnica do profissional brasileiro.

A mim foi confiada a missão de ir ao espaço e levar comigo além da nossa bandeira, os sonhos, os ideais, as esperanças, o orgulho e tantos outros sentimentos de uma nação inteira. Logicamente ela foi criada pela administração oficial. Contudo, depois de fazer parte dos desejos do povo brasileiro, ela passou a ser uma responsabilidade minha com o Brasil. Não é uma missão para a minha satisfação pessoal, ou apenas para cumprir uma ordem de uma autoridade. É meu dever cumpri-la até o final, custe o que custar, contra todos os obstáculos, mesmo com o meu sacrifício, se necessário, em passagem só de ida. Esse é o compromisso que eu dou ao meu país. Esse é o espírito que eu gostaria que o meu país tivesse por mim.

360 Graus - Quais são seus planos profissionais para depois do vôo?
Marcos Pontes - Continuar a disposição operacional para as missões tripuladas, seja no exterior ou no Brasil. Após liberado dessas missões, voltar ao Brasil e trabalhar de corpo e alma, seja lá como for mais eficiente, para que cada jovem brasileiro tenha acesso a EDUCAÇÃO homogênea em todos os cantos do País. Esse é na realidade o meu verdadeiro sonho de vida.

Saiba mais:
Marcos Pontes – www.marcospontes.net
Agência Espacial Brasileira – www.aeb.gov.br

Nesta reportagem:

» Entrevista com Marcos Pontes, o astronauta brasileiro
» O papel do Brasil na exploração espacial





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