Uma armadilha no fim do mundo

Autor: Tito Rosemberg
Website: www.titorosemberg.com.br
Data: 17/11/2003

A viagem das Ilhas Canárias com o jipe a bordo do cargueiro fora tranqüila, os problemas começariam ao colocar os pés na África. Como dizia meu amigo Craig Peterson que nos esperava com os pés grudados na lama das docas do decrépito porto: “Aqui não se busca aventura, se foge dela!”

Desembarcamos nosso Land Rover em Dacar, capital do Senegal, e entregamos nosso destino aos Orixás.

Havíamos sido contratados pela revista Surfer Magazine da Califórnia para investigar as ondas nunca antes sequer vistas do imenso litoral do Saara. Craig era fotógrafo e como Lorraine, minha namorada, também era da Califórnia. Juntos decidimos correr o risco.

Pelo que o mapa indicava dava para suspeitar que houvessem ondas boas numa ponta distante quase mil e quinhentos quilômetros e atravessando uma região que o exército inglês chama de “Empty Quarter”, o “lugar vazio”, onde testavam seus veículos 4x4.

De Dacar a Nouakchott o asfalto é tranqüilo. A fronteira entre o Senegal e a Mauritânia também.

Dias depois partimos de Nouakchott, apenas um oásis gigantesco, para Nouahdibou, já preparados para os quinhentos quilômetros pela praia que até o mapa Michelin, um clássico, dizia que era para ser feito “apenas na maré baixa”. Pela frente uns três a quatro dias de viagem pela praia e remotas possibilidades de encontrarmos alguém.

Até que fomos bem no primeiro dia, quando fizemos mais de 150 km antes de parar para a noite. Acampar no Saara muda a cabeça do agnóstico mais radical. O silêncio ensurdecedor, as estrelas no céu negro mais limpo do planeta, um papo na beira da fogueira e a imensidão sem fim do Saara de um lado e o Oceano Atlântico de outro são imagens inesquecíveis até para o viajante mais experientes.

Partimos cedo, assim que a maré começou a baixar. Poucas pessoas tiveram o prazer de dirigir numa praia do Saara, e cercados apenas de dunas e mar sabíamos bem porque tão poucas.

Lá pelas tantas, aos pés de uma enorme duna amarela surge à nossa frente um grande veleiro de madeira encalhado, um barco que antigamente levava sal do deserto para as Ilhas Canárias e voltava com bananas. O casco estava meio coberto de areia e por um enorme buraco na proa via-se o porão vazio e cheio de água. Resolvemos entrar no casco para descansar um pouco do vento constante e aproveitar para fazer uns crepes com nosso fogão à gasolina e os víveres que levávamos conosco.

Tão mágico era o lugar que nos esquecemos de controlar o tempo, e quando percebemos a maré já subia. Precisávamos sair dali correndo pois o mar logo tocaria nas dunas altas e se bobeássemos poderia até cobrir o carro.

Foi nessa hora tensa que nossa distração encontrou-se com o azar, velho sorrateiro que está sempre à espreita de viajantes despreocupados. Passando por uma região onde a areia estava coberta por algas tipo sargaço caímos num enorme buraco invisível sob a vegetação que cobria a areia e em um segundo o veículo já não se movia mais.

Não levou mais de um segundo! Bingo! Era o que faltava: atolar na areia da praia mais deserta do mundo a 250 km da cidade mais próxima e justo quando a maré subia! O Saara cobrava seu “pedágio kármico”. Nem o cabo de aço do guincho com seus trinta metros engatado no estepe enterrado num buraco de mais de metro e meio na areia seca conseguia mover o jipe um só centímetro, com seu chassis completamente grudado na areia molhada.

Quando a maré encostou no jipe abandonamos o esforço e rapidamente esvaziamos todo o equipamento para mais alto, onde estaria a salvo das ondas. Depois foi só acender uma fogueira com madeira que havíamos trazido conosco e esperar a maré descer, depois de subir e fazer o estrago que quiser.

No escuro da noite uma vela se aproximou da praia e logo vimos dois pescadores com trajes típicos dos tuaregues. Os dois eram da última tribo de pescadores nômades do Saara. No francês rocambólico deles, pior do que o meu, diziam que poderiam nos ajudar, por um precinho camarada: o Land Rover! Como? Vocês querem o jipe? Ahn! Querem o carro para nos tirar dali!

Miseráveis urubús se aproveitando da nossa desgraça! Obrigado! Podem ir em seus caminhos! E com o coração menor que a moeda de dirham que eu tinha no bolso vimos os dois silenciosamente desaparecerem tão silenciosos como chegaram.

Às oito da noite a maré atingiu as maçanetas das portas, ondinhas passavam por cima do capô. A maré estava no seu ponto mais alto, e nossa moral no mais baixo. Lá pelas dez da noite o mar começou a baixar, a madeira estava terminando na fogueira e o escuro tomou conta de tudo. Começamos a trabalhar levantando uma roda de cada vez. Abríamos um buraco embaixo do chassis e com o macaco hidráulico íamos lentamente levantando cada uma das rodas e colocando areia seca embaixo para trazermos o jipe para o nível da praia.

À meia noite, com as quatro rodas liberadas liguei o motor, que mesmo depois de horas submerso rugiu em poucas tentativas. Com nossas roupas, pranchas e equipamentos estirados na areia fizemos uma trilha para as rodas não afundarem e desta vez o guincho consegui mover o jipe, que aos poucos começou a subir rumo à segurança, onde chegou antes que nossos corações explodissem de tensão.

Às duas da manhã demos o “ufa!” final. Estávamos fora! Dormir! Esquecer! Sonhar que estava em outro lugar!! Logo! Pela manhã tudo parecia fácil. Mas era preciso voltar e ver os danos no concessionário em Nouakchott. Era só tirar a areia de dentro dos cubos de roda para destravar o suficiente para seguirmos viagem, o que seria feito com baldes cheios de água do mar colocados sobre o teto e uma mangueirinha.

Antes do sol esquentar já estávamos de volta no rumo sul, esperando que nada quebrasse antes de chegarmos de volta ao nosso ponto de partida.

Dois dias depois, na concessionária descobrimos que havia entrado areia na transmissão, que deveria ser removida. O trabalho demoraria uma semana. Depois tentaríamos outra vez descobrir as ondas secretas de Nouahdibou! Se o azar e uma distração não se encontrarem para mais uma vez mudar nossos planos. In Shallah!

(publicado na Gracie Magazine # 77, maio de 2003)

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