Aventuras no asfalto

Autor: Tito Rosemberg
Website: www.titorosemberg.com.br
Data: 8/5/2003

Depois de uma vida viajando pelo mundo e em centenas de veículos diferentes ainda fico confuso quando tento comparar o Brasil com o resto do mundo.

Algumas coisas são espetaculares, como a natureza exuberante e a alma das pessoas, outras de dar vergonha, como as estradas e peças de reposição.

O aventureiro brasileiro já começa seu desafio ao trafegar pelas estradas asfaltadas, quase sempre em péssimo estado de conservação, culpa do descaso dos políticos e da incompetência e/ou desmotivação dos funcionários dos departamentos encarregados da manutenção delas.

No Nordeste, região que tenho pesquisado ultimamente, a situação da maioria das estradas após uma boa temporada de chuvas está escandaloso.

Depois de 20 mil km percorridos nestes últimos 11 meses, o que ficou na memória são assustadoras crateras no asfalto das principais “BRs” e estradas vicinais em estado deplorável.

Há quem diga que é falta de verba para manutenção, mas minha intuição me diz que é uma combinação de prioridades governamentais para obras dedicadas a contentar políticos... e muita incompetência.

Há poucos dias atrás, vindo da região do Cariri cearense para Fortaleza, deparei-me com diversos acidentes graves com vários mortos, quase todos ocasionados pelos buracos que causaram o descontrole dos veículos, que dirigidos por verdadeiros brasileiros, é óbvio, trafegam em velocidade muito superior ao que seria aconselhável nestas rodovias estraçalhadas.

É interessante notar que quando em viagem ao exterior conto aos amigos que cadáveres à beira da estrada é um acontecimento corriqueiro no Brasil, e eu nestas mais de cinco décadas de vida já vi centenas deles, os estrangeiros parecem não acreditar.

Fora do Brasil a morte é um acontecimento sério, aqui, uma pequena comoção corriqueira na vida dos residentes no entorno do acidente.

O abuso do álcool agrava ainda mais os efeitos de estradas assassinas, e as estatísticas estão aí para provar isso já que o Brasil está entre os campeões de mortes no trânsito, mas parece que esta hecatombe social está longe de terminar, já que as campanhas governamentais de prevenção acabam sempre sendo esporádicas e a fiscalização mais preocupada em extorquir os motoristas.

Esta combinação faz de uma viagem no Brasil uma aventura constante: driblar os buracos, escapar dos policiais quase sempre corruptos, pelo menos na minha experiência, evitar viajar à noite por causa dos assaltos, e há estradas no nordeste em que nem os nativos viajam depois que escurece devido às atividades dos bandidos.

E para adicionar ao escândalo das estradas brasileiras, vem o problema da péssima manutenção dos veículos, sejam eles caminhões, ônibus ou carros, e o excesso de carga dos caminhões.

A falta de cuidado no estado dos veículos mostra a ausência de espírito comunitário da maioria dos motoristas, que mesmo sem dinheiro para comprar amortecedores ou pneus novos, sempre arranjam um trocado para montar equipamentos de som ensurdecedores e beber até perder o controle de seus veículos, quase sempre com conseqüências devastadoras para suas famílias e a dos que por infelicidade cruzam por estes brasileiros irresponsáveis.

Contribuindo enormemente para este quadro assustador, está o preço absurdo e imoral das peças, que parece ser onde as montadoras de veículos resolveram fazer seus maiores lucros, caso contrário como se poderia explicar que o aro mais básico da roda de um Land Rover, que na Itália comprei há dois anos no concessionário de Roma, feita na Inglaterra, por 80 dólares, aqui, feita no próprio país, custe num concessionário de uma capital nordestina “apenas” R$ 650,00 ou seja, mais de duzentos dólares, duas vezes e meia o preço europeu?

E como se explica que eu possa comprar pelo mesmo valor deste um aro original quatro aros “não originais” de ótima qualidade feitos por um mundialmente conhecido fabricante nacional de rodas e oferecido pelo mesmo concessionário?

Alguém explica?

Outro exemplo? Um fusível de 100 ampéres para o Defender 110 custa nos concessionários brasileiros em torno de 18 reais, e se não tiver em estoque leva mais de duas semanas para chegar.

Eu precisei de um destes fusíveis raros e como não achei no concessionário tentei outra opção: mandei um email para amigos na Califórnia, que foram numa loja perto de casa e o compraram, colocaram num envelope e entregaram ao correio.

O fusível chegou às minhas mãos nas lonjuras de Jericoacoara no Ceará antes do original viajar de São Paulo à Fortaleza e pior, custou apenas R$ 6,00 ou seja, três vezes mais barato do que o que a Land Rover distribui. E ninguém venha me dizer que na Califórnia vende-se produto de baixa qualidade.

Assim percebe-se que esta diabólica combinação de políticos mesquinhos, policiais rodoviários sem ética, motoristas irresponsáveis, estradas esburacadas e peças caríssimas, faz de uma simples viagem pelo Brasil, uma grande aventura, e sem mesmo precisar sair do asfalto.

Um conselho? Ao viajar de carro dirija com muito cuidado, porque este coquetel de problemas pode ser o fim do seu passeio... nesta vida!

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