Você sabia e nada fez?

Autora: Margi Moss
Data: 10/12/2007

Com cada hora que passa, sinto um pânico crescendo dentro de mim. Um pânico porque está morrendo uma pessoa como poucas nessa Terra, sem que eu possa fazer algo para impedi-lo.

Não se trata de um parente ou amigo que está morrendo com alguma terrível doença terminal, ou após um acidente. Não se trata de uma pessoa íntima, bem que já tive a honra de conhecê-lo: é uma pessoa conhecida em todo Brasil e até internacionalmente – Dom Luiz Flávio Cappio, bispo da cidade de Barra, às margens do rio São Francisco.

Você sabia que Dom Luiz está em jejum, desde o dia 27 de novembro (há 12 dias), numa capela franciscana em Sobradinho, BA, num ato de protesto contra a transposição das águas do São Francisco? Ele está disposto a dar a vida, o último sacrifício, para chamar a atenção ao assunto que foi o motivo de uma greve de fome que ele fez em 2005 e obteve, como resultado, a promessa de um diálogo abrangente com a sociedade civil sobre essa obra.

Agora, por acaso, você leu algo nos jornais a respeito desse novo protesto do bispo, que dura 12 dias? Esse grito discreto, manifestação de repúdio na distante cidadezinha de Sobradinho, longe dos holofotes do eixo RJ-SP. Porque as câmeras de TV não estão ali, eles que gostam tanto de cobrir desgraças?

Doze dias sem comer. Já pensou? A boca fechada da imprensa nacional não é solidária, é cúmplice. Nós estamos deixando a vida dele ir embora, devagarzinho. Será que o povo pode ser um rolo compressor, sem a ajuda da mídia? De boca em boca vai funcionar, nos reunindo nas praças? Vai funcionar a tempo? Estamos correndo contra o relógio.

Há anos, Dom Luiz luta pelo Velho Chico, rio que fornece tudo para o povo do semi-árido baiano que é seu rebanho. O rio é extremamente poluído, sobretudo pelo aporte de efluentes industriais e domésticos provenientes da região de Belo Horizonte através do Rio das Velhas, seu maior afluente. Este ano, ano em que começaram as obras da transposição, a situação até piorou, e muito. A seca prolongada abaixou ainda mais o nível do rio, cujas águas há mais de um mês se tornaram verdes e mal-cheirosas, com a presença de cianobactérias (bactérias potencialmente tóxicas) em toda sua extensão.

E por acaso, você leu algo a respeito do rio recentemente? Você viu alguma reportagem sobre a mortandade dos peixes no São Francisco, como vimos duas vezes sobre o rio dos Sinos, RS? Você viu a TV mostrando comunidades de ribeirinhos que tiveram que ser abastecidas com caminhão-pipa por não poder usar a água do rio, nem para tomar banho? Pescar então...? Proibido!

Na cidade de São Francisco (MG), uma professora me escreveu, denunciando o fato que o povo mal conseguia dormir à noite, tão forte era o mau cheiro vindo do rio. Dava dor de cabeça e vômitos. Isso é um assunto para ser abafado na imprensa? Qual é o motivo do silêncio da mídia?

Agora, o silêncio será redobrado, se é possível redobrar a ausência de barulho.

Você pode concordar ou não com a maneira que o bispo protesta. Você pode concordar ou não com esta caríssima obra. Mas você não pode concordar com a indiferença diante de uma situação humanitária, diante de um sacrifício humano. Você não pode concordar com bater a porta ao diálogo.

É chantagem emocional? É! Mas assim fizeram outras pessoas na história da humanidade, pessoas que lutaram sozinhas para as causas em que acreditaram e que hoje têm nosso maior respeito: Gandhi, Mandela, Martin Luther King. Não foram tachados de rebeldes, comunistas, loucos pelos governos contra quem lutaram? O herói que mais me lembra o ato do bispo foi o chinês desconhecido que sozinho fincou o pé diante os tanques de guerra na Praça Tiananmen, Beijing, em 1989. Ninguém sabe que fim ele levou, mas não é difícil de imaginar.

Você pode não saber ou não entender do assunto. O ato de levar água para os pobres do semi-árido nordestino não seria também humanitário? Você acha que, se fosse sinceramente assim, o bispo seria contra? Entra no site dele, clique nos vídeos, veja o tom desse homem de Deus para ver se há retórica na fala dele. Ele não propõe deixar os pobres do nordeste sem água, porque existem outras opções, propostas excelentes que vêm de dentro do próprio governo e que realmente forneceriam água para quem precisa, gente que está longe agora e sempre vai ficar longe dos canais da transposição.

Examine os esforços e as razões do bispo, conforme claramente colocados em seu site Uma Vida pela Vida (www.umavidapelavida.com.br). E se você achar que ele possa ter razão, seja solidário, assine a petição, participe dos atos em seu apoio que estão, aos poucos, acontecendo em todo o Brasil. Concordar ou não, é impossível não ser comovido pela fala mansa e ponderada do dom Luiz, por sua humildade. E pelo sacrifício que ele está disposto a pagar.

Nesta coluna:
» Carta de Dom Cappio ao Presidente Lula, entregue dia 26/11/2007

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