Ligue para a água!

Autora: Margi Moss
Data: 21/3/2006

O Dia Mundial da Água (22 de março) tem a bela vantagem de não nos obrigar a enfrentar filas no shopping para comprar um celular de presente. Mas mesmo não podendo receber telefonemas, a água pede que liguemos pra ela.

Durante 14 meses, terminando em dezembro de 2004, o Projeto Brasil das Águas (www.brasildasaguas.com.br) coletou amostras de água doce em 1.160 pontos espalhados em todo o território nacional usando um método inovador, um avião anfíbio. Levava instalada a bordo uma sonda multi-paramétrica para registrar os dados físico-químicos.

Outros indicadores da qualidade de cada amostra foram analisados mais tarde por vários pesquisadores em São Paulo, Rio e Minas. Levando em conta certas limitações, por se tratar de uma única amostra coletada num rio ou lago num determinado momento, a abrangência da amostragem tornou possível desenhar um panorama das águas doces do país para fins de alerta. O Brasil é abençoado em termos de recursos hídricos, mas precisamos deixar de ser complacentes e começar cuidar bem dessa riqueza.

Além da pesquisa científica, grande parte do enfoque do projeto era (e continua sendo) colocar a água na boca do povo. Em quase 800 horas de vôo, meu marido Gérard e eu percorremos 120.000 km. Passamos por lugares maravilhosos com águas ainda puras e outros lugares, também maravilhosos, com águas contaminadas. Em nossas conversas com ribeirinhos, do Oiapoque ao Chuí, da Ponta do Seixas ao Serra do Divisor, ouvíamos sempre a mesma reclamação: “A água do rio chega aqui poluída. Meus filhos ficam doentes...” Essas mesmas pessoas jogavam seu lixo no rio. As cidades onde moram despejam o esgoto in natura nos rios. A culpa é sempre de quem mora rio acima, dane-se quem mora rio abaixo.

Porque tanto reclamar da água suja? Ela não se suja sozinha. Queremos que ela chegue nas nossas casas pura e cristalina, mas, felizes da vida, vamos poluindo-a com detergentes, cloro, gordura, óleo, tintas etc, lavando nossos corpos, camisas, casas, carros e calçados. Sem falar de emporcalhá-la nos vasos “sanitários”; damos a descarga e não se fala mais nisso...

Sem dúvida, a água tem que entrar em casa limpa. O saneamento básico é uma meta essencial no desenvolvimento do Brasil. Mas vamos nos preocupar um pouco mais com a qualidade do que desce pelo ralo. O tratamento de esgoto não pode ficar para trás, mesmo por motivos econômicos. Um amigo japonês me disse que, lá, as fábricas são obrigadas a tirar a água que utilizam rio abaixo da unidade e devolvê-la rio acima. Excelente idéia. E se fizermos a mesma coisa com os municípios? Com a ‘fonte’ rio abaixo do local de despejo, com certeza haverá os maiores cuidados com a água devolvida ao rio!

Não é novidade que rios como o Tietê, Iguaçu ou Paraíba do Sul estejam altamente poluídos. Mas, para surpresa minha, as análises do projeto mostram que os rios nordestinos também estão seriamente contaminados. Será difícil convencer pequenos municípios amazônicos da importância de não poluir a água tão abundante em torno deles. Mas no semi-árido? Numa região onde cada gota tem uma importância descomunal, faz sentido contaminar os açudes ou os rios minguados com dejetos humanos, agrícolas e industriais?

A péssima condição de rios nordestinos reflete uma tendência que se repete em outros rios do país. Lá, quatro fatores – população grande, calor intenso, pouca chuva, quase nenhum tratamento – pioram a situação, mas as práticas que os deixaram nesse estado triste são comuns a todas as regiões. Ao contrário de obras faraônicas como a transposição do São Francisco, programas de despoluição, revitalização ou tratamento de esgoto são bem mais urgentes, mas não ganham votos nem espaço na imprensa.

No Dia da Água, então, vamos ligar para ela. Se cada um dos leitores do 360 Graus passasse cinco minutinhos pensando como podemos deixar de poluir ou desperdiçar 100 litros (5 baldes), e o fizer, estaríamos poupando 17 milhões de litros. E se fizermos isso uma vez por semana ao longo do ano, seriam 884 milhões de litros! Não é difícil: lave o carro menos, por exemplo. Vamos fazer nossa parte. Melhor, vamos colocar a água na agenda eleitoral.

(Adaptado de matéria publicada no jornal eletrônico carioca Montbläat)

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