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Há cinco séculos ele
abriu as portas da Ásia para a Europa e traçou o primeiro caminho
marítimo que ligou os povos de quatro continentes, redesenhando a Terra
para uma nova era de conquistas e intercâmbio. Mas se os feitos do
capitão Vasco da Gama são bem conhecidos, de sua origem sabe-se muito
pouco. Supõe-se que tenha nascido no final da década de 1460, em data
tão imprecisa quanto o local. Diz-se que é de Sines, cidade litorânea
que ele mais tarde saudaria sempre que seu navio passasse por ela.
Alentejano de sangue britânico, filho de uma família de serviçais
elevados à condição de nobres como prêmios por sua dedicação ao rei
e à Ordem de Santiago, ele teve uma juventude repleta de prazeres
violentos.
Vasco da Gama transitou
por entre cavalheiros e corsários, compartilhando as mesmas paixões,
rancores e esperanças. Nos navios do rei de Portugal, D. Manuel I,
adestrou-se nas artes e nas técnicas de navegação que deram aos
portugueses o domínio do Atlântico, antes mesmo da grande travessia do
oceano Índico. Em 1497, nove anos depois de Bartolomeu Dias ter cruzado o
cabo da Boa Esperança, Vasco da Gama partiu de Lisboa, com três
caravelas e uma tripulação formada por marinheiros inexperientes, em
direção à Índia, onde chegou em 1948. E descobriu no oceano Índico um
mundo próspero e um mercado imenso dominado pelo crescente poderio do
Islã.
Membro de uma geração
de navegadores, cientistas e pensadores como Colombo, Copérnico ou
Erasmo, que em cinco décadas mudou a face do mundo, Vasco da Gama
alcançou enorme glória, que culminou, no final do século XVI, com a
publicação de Os Lusíadas, no qual Luís de Camões apresenta
Vasco da Gama como um herói místico, digno dos heróis da Odisséia
e da Eneida. Mas é também o homem oculto pelo mito que o
cuidadoso trabalho de Geneviève Bouchon revela: um capitão impiedoso,
com uma personalidade forjada na violência, versado nos mistérios do mar
mas ignorante daqueles da política, e cuja vida alternou fases de
calmaria e intensa atividade. |